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São Francisco de Sales

São Francisco de Sales (1567-1622), Bispo de Genebra, Doutor da Igreja.

FILOTÉIA OU INTRODUÇÃO À VIDA DEVOTA

O documento que proclamou São Francisco de Sales “Doutor da Igreja” (em 1887)  apresentou o seu ensinamento espiritual como uma “via segura, fácil e suave“. De fato, basta uma leitura superficial de sua obra mais famosa – Filotéia ou Introdução à vida devota (1609) – uma espécie de manual de ascética para leigos, – para logo se dar conta de sua linguagem direta, simples e cativante. São Francisco sabe combinar comparações tiradas da vida da natureza com situações comuns da vida cotidiana em orientações claras e objetivas  para a perseverança e o progresso no caminho espiritual.  Sua linguagem e comparações  lembram muito o modo como Jesus costumava ensinar, como podemos constatar nos Evangelhos.

É tão possível quanto desejável a busca da santidade (a perfeição espiritual) nos diversos estados de vida, na vida comum e cotidiana, em sua variedade de situações e aspectos (vida familiar, vida social, trabalho…) –  é a ideia mestra de S. Francisco de Sales. A santidade é para todos. Mas é preciso saber perseverar, saber dar os passos certos e também discernir o melhor modo de colaborar com a ação santificadora da graça divina. Para isto os ensinamentos da Introdução à vida devota são um auxílio seguro.

Alguns ensinamentos da “Introdução à vida devota”:

Uma breve coletânea de ensinamentos, mas apenas como um convite para aquilo que vale realmente a pena: a leitura íntegra, frequente e atenta do livro:

1. Sobre oração

“A oração, fazendo o nosso espírito penetrar na plena luz da divindade e expondo a nossa vontade abertamente aos ardores do amor divino, é o meio mais eficaz de dissipar as trevas de erros e ignorância que obscurecem a nossa mente e de purificar o nosso coração de todos os seus afetos desordenados.  É ela a água da graça, que lava a nossa alma de suas iniquidades, alivia os nossos corações, opressos pela sede das  paixões, e nutre as primeiras raízes que  a virtude vai lançando, que são os bons desejos” (parte II, cap. I, I)

“Mas, o que muito em particular te aconselho é a oração de espírito e de coração e, sobretudo, a que se ocupa da vida e paixão de Nosso Senhor: contemplando-o, sempre de novo, pela meditação assídua, tua alma há de por fim encher-se dele e tu conformarás a tua vida interior e exterior com a sua. Ele é a luz do mundo; é nele, por ele e para ele que devemos ser iluminados”

“… jamais nos seria possível contemplar a divindade nesta vida mortal, se não se unisse à nossa humanidade em Jesus Cristo, cuja vida, paixão e morte constituem para as meditações o objeto mais proporcionado a nossas luzes, mais agradável ao nosso coração e mais útil ao melhoramento de nossos costumes” (II, I, II).

“Começa tua oração, seja mental, seja vocal, sempre pondo-te na presença de Deus; nunca negligencies esta prática e verás em pouco tempo os seus resultados” (I, II, V).

“Não te deixes levar pela pressa infundada de fazer muitas orações, mas cuida de rezar com devoção; um só Pater, rezado com piedade e recolhimento, vale mais que muitos recitados precipitadamente” (I, II, VI).

2. A Santa Missa

A Missa “é para os exercícios de piedade o que o sol é para os outros astros”.

“A Eucaristia é, na verdade, a alma da piedade e o centro da religião cristã, à qual se referem todos os seus mistérios e leis. É o mistério da caridade, pelo qual Jesus Cristo, dando-se a nós, nos enche de graças dum modo tão amoroso quão sublime” (II, XIV, I).

“Faze o possível para arranjar o tempo necessário de ouvir todos os dias a santa Missa, a fim de oferecer juntamente com o sacerdote o sacrifício do teu divino Redentor a Deus, seu Pai, por ti mesma e por toda a Igreja. São João Crisóstomo nos afirma que os anjos a ele assistem em grande número, para honrar com sua presença este mistério adorável” (II, XIV, III).

3. A devoção a Maria e aos santos

“Honra, venera e respeita dum modo especialíssimo a santíssima e excelsa Virgem Maria, que, como Mãe de Jesus Cristo, nosso irmão, é também indubitavelmente a nossa Mãe” (II, XVI).

4. Virtudes

“Na prática das virtudes convém preferir as que são mais conformes aos nossos deveres às que são mais conformes ao nosso gosto” (III, I).

“Escolhe, Filotéia, as virtudes que são melhores e não as mais apreciadas, as mais excelentes e não as mais aparatosas, as mais sólidas e não as que fazem muito alarde e têm muito brilho exterior” (III, I).

5. Detração, maledicência

“A dissimulação e o desprezo da detração ou calúnia é de ordinário um remédio mais salutar que o ressentimento, a contenda ou a vingança”.

“A detração ou maledicência só prejudica a quem faz caso dela”.

“As almas verdadeiramente cristãs desprezam essa torrente de palavras de que a detração enche o mundo; os fracos é que se inquietam de tudo o que dizem sobre eles” (III, VII).

“Peço-te encarecidamente, Filotéia, que nunca fales mal de ninguém, nem direta nem indiretamente…”

“… excetuo apenas os inimigos da Igreja, porque  a estes devemos combater quanto pudermos, como são os chefes de heresias, cismas, etc. É uma caridade descobrir o lobo que se esconde entre as ovelhas, em qualquer parte onde o encontremos” (III, XXIX).

6. Virtude domiciliar

“… devemos ter também a doçura do leite no lar doméstico, para com os parentes e vizinhos. É o que falta a muitas pessoas, que fora de casa parecem anjos e em casa vivem como verdadeiros demônios” (III, IX).

7. Mansidão

“Um modo de fazer um bom uso desta virtude é aplicá-la a nós mesmos, não nos irritando contra nós e nossas imperfeições; o motivo, pois, que nos leva a sentir um verdadeiro arrependimento de nossas faltas não exige que tenhamos uma dor repassada de aborrecimento e indignação. É quanto a este ponto que muitos erram continuamente…”

“… esta ira, pesar e aborrecimento contra si mesmo encaminham ao orgulho, procedem do amor-próprio que se perturba e inquieta por nos ver tão imperfeitos. O arrependimento de nossas faltas deve ter duas qualidades: a tranquilidade e a firmeza” (III, IX).

8. Inquietação

“A inquietação é o maior mal da alma, com exceção do pecado” (IV, XI).

9. Humildade

“O verdadeiro humilde não quer parecer que o é e nunca fala de si mesmo; a humildade, pois, não só procura esconder as outras virtudes, mas ainda mais a si mesma” (III, V).

10. Tristeza

“A tristeza pode, pois, ser boa ou má, conforme os diversos efeitos que em nós opera: mas em geral ela opera mais maus do que bons, porque os bons são só dois: a misericórdia e a penitência; e os maus são seis: o medo, a indignação, o ciúme, a inveja, a impaciência e a morte; pelo que diz  o sábio: a tristeza mata a muitos e a ninguém aproveita.

O inimigo serve-se da tristeza para tentar os bons até em suas boas obras, como se esforça também por levar os maus a se alegrarem de suas más ações; e como ele não pode nos seduzir ao mal, senão fazendo-o parecer agradável, assim também não nos pode apartar do bem senão fazendo-o parecer incômodo” (IV, XII).

11. O cuidado dos bens temporais

“… os bens que temos não nos pertence e Deus, que os confiou à nossa administração, quer que os façamos frutuosos; é, portanto, prestar um serviço agradável a Deus cuidar deles com diligência; mas este cuidado há de ser muito mais acurado e maior que o das pessoas do mundo, porque elas trabalham por amor delas mesmas e nós devemos trabalhar por amor de Deus. Ora, como o amor de si mesmo é um amor inquieto, turbulento e violento, o cuidado que dele procede é cheio de perturbação, pesar e inquietação; mas o cuidado que procede do amor de Deus, que enche o nosso coração de doçura, tranquilidade e paz, é necessariamente suave, tranquilo e pacífico, mesmo quanto aos bens temporais. Tenhamos sempre um espírito calmo e uma tranquilidade de vida inalterável, em conservando e aumentando os bens deste mundo segundo as verdadeiras necessidades e ocasiões justas que nos ocorrem; porque, enfim, Deus quer que nos sirvamos destas coisas por seu amor”  (III, XV).

12. Amor aos pobres, aos necessitados

“Reserva frequentemente uma parte de teus bens para empregá-la em favor dos pobres”.

“Se amas os pobres, deves ter gosto de te achares entre eles, de os ver em tua casa, de os visitar em suas casas, de falar com eles, de os ter perto de ti, na igreja, nas ruas e em outros lugares. Sê pobre ao falar com eles, conformando-te à sua linguagem, como um igual ao seu igual” (III, XV).

13. Como se deve comungar

“Considera, se te agradar, este doce pensamento: a abelha, recolhendo o orvalho do céu e o suco das flores, que é o mais precioso da terra, faz disso o seu mel e o leva para a colméia, a fim de se alimentar; o padre toma do altar o Salvador do mundo, que é o verdadeiro Filho de Deus, descido do céu, e o verdadeiro Filho da Virgem, saído da terra, como todos os homens, e te entrega para a alimentação de tua alma.

Excita então o teu coração a render o culto devido a este Rei e Salvador divino; faze-lhe o melhor acolhimento que puderes. Contempla a sua presença em ti, que é ao mesmo tempo a tua felicidade; trata confidentemente com ele, sobre os teus negócios interiores e por todo o resto do dia manifesta por tuas ações que Deus está contigo” (II, XXI).

14. Comunhão espiritual

“Se não puderes comungar realmente na santa Missa, faze-o ao menos em espírito e com o coração, unindo-te pela fé à carne vivificante do Senhor” (II, XXI).

“A principal intenção que deves ter na comunhão é a de adiantar, purificar e consolar a tua alma no amor de Deus; deves, pois, receber com espírito de amor o que só o amor te pode dar. Não, não podemos achar um outro ato mais amoroso e mais terno da bondade de Nosso Senhor do que este em que ele se aniquila, por assim dizer, e se dá a nós, como alimento, para penetrar a nossa alma de si mesmo e para estender esta união também ao corpo, ao coração dos seus fiéis” (II, XXI).

15. Necessidade da comunhão frequente

“Se o mundo te perguntar porque comungas tão frequentemente, deves responder-lhe que é para aprender a amar a Deus, purificar-te de tuas imperfeições, livrar-te de tuas misérias, procurar consolo em tuas aflições e fortificar-te em tuas fraquezas. Dize ao mundo que duas espécies de pessoas devem comungar muitas vezes: os perfeitos, porque, estando bem preparados, fariam muito mal de não se chegarem muitas vezes a esta fonte de perfeição, e os imperfeitos, a fim de aspirarem à perfeição; os fortes, para não enfraquecerem, e os fracos, para se fortificarem; os sadios, para se preservarem de todo o contágio, e os doentes, para se curarem. E acrescenta que, quanto a ti, que és do número das almas imperfeitas, fracas e doentes, precisas receber muitas vezes o Autor da perfeição, o Deus da força e o Médico das almas” (II, XXI).

16. O cuidado com as palavras

“… posso afirmar que as nossas palavras são o indício mais certo do bom ou do mau estado da alma.”

“Se amas a Deus, falarás frequentemente de Deus nas tuas conversas íntimas com as pessoas de casa, com teus amigos e vizinhos…” (III, XXVI).

“Se alguém não peca por palavras, é um homem perfeito, diz S. Tiago.  Tem todo cuidado em não deixar sair de teus lábios alguma palavra desonesta, porque, embora não proceda duma má intenção, os que a escutam a podem interpretar de outra forma. Uma palavra desonesta que penetra num coração frágil estende-se como uma gota de azeite e às vezes toma posse de tal modo dele que o enche de mil pensamentos e tentações sensuais. É ela um veneno do coração, que entra pelo ouvido; e a língua que serve de instrumento a esse fim é culpada de todo o mal que o coração pode vir a sofrer…” (III, XXVII).

17. Como falar de Deus

“Fala de Deus como de Deus, isto é, com um verdadeiro sentimento de respeito e de piedade e nunca fales dele manifestando uma ciência vã ou num tom de pregador, mas com espírito de caridade, mansidão e humildade. Imita, quanto a isto, a esposa do Cântico dos Cânticos, derramando o mel delicioso da devoção e das coisas divinas no coração do próximo, e pede a Deus em espírito que se digne cair este orvalho santo nas almas das pessoas que te ouvem.  Sobretudo, não lhes fales com um tom de correção, mas de um modo de inspiração e como os anjos, isto é, com uma doçura angélica, porque é admirável quanto pode alcançar nos corações uma boa palavra que procede do espírito de amor e mansidão”.

“Jamais fale de Deus ou da devoção como assunto de diversão ou passatempo, mas sempre atenta e devotamente…” (III, XXVI).