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São Cipriano de Cartago: o equilíbrio, a modéstia e a reverência na oração pessoal e na oração litúrgica

21/04/2012

As palavras e as súplicas dos que oram devem ser disciplinadas, serenas, contidas e respeitosas; tenhamos em conta que estamos na presença de Deus. Devemos ser agradáveis aos olhos de Deus tanto pela atitude do corpo como pela moderação da voz, pois se é próprio do despudorado rezar aos gritos, ao homem discreto convém orar modestamente. Além disso, no seu magistério, o Senhor preceituou-nos que rezássemos em segredo, em lugares afastados e recolhidos, e até no próprio quarto, pois é o que mais convém à fé; assim temos presente que Deus está em toda a parte, que nos ouve e vê a  todos, e que a imensidão da sua majestade penetra nos lugares mais recônditos e ocultos, tal como está escrito: Eu sou um Deus que se aproxima, não um Deus longínquo. Se o homem se ocultar em lugares ocultos, por acaso não o verei? Não preencho o céu e a terra? (Jer 23,23-24). E noutra passagem: Os olhos do Senhor estão em todo o lugar, contemplando os bons e os maus (Prov 15,3).

Da mesma forma, quando nos reunimos com os nossos irmãos, e oferecemos os sacrifícios divinos pelas mãos do sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da modéstia e da disciplina e não proferir as nossas orações com palavras destemperadas nem enunciar com tumultuada loquacidade as súplicas que deveríamos confiar modestamente a Deus, porque Deus não escuta as palavras, mas aquilo que sai do coração; não podemos dirigir-nos aos brados Àquele que conhece os pensamentos dos homens, como assegura o Senhor ao dizer: Por que pensais mal em vossos corações? (Mt 9,4). E noutro lugar: E todas as igrejas saberão que eu sou aquele que perscruta os rins e os corações (Apc 2,23).

Isto mesmo é o que nos ensina e transmite – como vemos no primeiro livro dos Reis – aquela Ana que prefigura a Igreja, pois não rogava a Deus com clamorosa petição, mas dirigia-se a Ele calada e tranquilamente no íntimo do seu peito. Falava-lhe às ocultas, mas manifestava a sua fé; falava, não com a voz, mas com o  coração, porque sabia que desse modo o Senhor lhe daria ouvidos e que assim conseguiria com maior eficácia aquilo que dessa forma lhe pedia com maior fé. É o que declara a Escritura quando diz: Falava no seu coração e moviam-se os lábios, mas não se ouviam as suas palavras, e o Senhor a escutou (1Rs 1,13). O mesmo lemos nos Salmos: Falai no vosso interior e retirai-vos para os vossos aposentos (Sl 4,5). E o Espírito Santo sugere-nos a mesma ideia ao falar pela boca de Jeremias: Deves adorar a Deus no teu íntimo (Jer 5,6; Bar 6,5).

(De oratione dominica, 4-5)

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